
Existe uma distância que não aparece nos mapas.
É a distância entre quem sonha em fazer cinema e os lugares onde as oportunidades costumam acontecer. Para Marlon Andrade, cineasta de 33 anos, essa distância começa no Jardim Santo Eduardo, em Embu das Artes, na Grande São Paulo, e chegou até um dos principais eventos do cinema brasileiro: o Festival de Cinema de Gramado.
A trajetória de Marlon ganhou projeção nacional neste mês. Ele foi selecionado para a 1ª Residência para Jovens Cineastas de Gramado, programa criado para aproximar novos realizadores do mercado audiovisual brasileiro.
Entre mais de 200 candidatos de todo o país, apenas 60 foram selecionados. Marlon alcançou o 5º melhor resultado da seleção e ficou em primeiro lugar entre os candidatos do estado de São Paulo.
Mais do que uma classificação, o resultado colocou o nome de um cineasta da periferia de Embu das Artes no radar de profissionais que acompanham os novos caminhos do cinema brasileiro.
Uma câmera emprestada e o começo de uma história
Antes de Gramado, antes das credenciais e dos grandes encontros profissionais, houve uma câmera.
Marlon lembra que sua aproximação com o audiovisual começou quando decidiu pegar uma câmera emprestada, fazer uma fotografia e, a partir daquela experiência, aperfeiçoar sua maneira de contar histórias.
A frase parece simples. Mas ajuda a explicar uma trajetória construída longe dos grandes centros tradicionais da indústria cinematográfica.
Desde 2014, Marlon atua profissionalmente no audiovisual, desenvolvendo trabalhos como diretor, produtor e roteirista. Ao longo desse período, participou de projetos independentes e de produções viabilizadas por programas de financiamento estaduais e federais.
Em 2022, passou a integrar a Academia Brasileira de Cinema.
Agora, o nome que começou a construir carreira a partir da periferia de Embu das Artes aparece entre os novos talentos observados pelo mercado nacional.

O Jardim Santo Eduardo chega a Gramado
Nascido em Araci, na Bahia, Marlon construiu sua vida em Embu das Artes e atualmente mora no Jardim Santo Eduardo, bairro da periferia da cidade.
É desse território que ele levou sua experiência para a Serra Gaúcha.
A participação na residência aconteceu entre os dias 17 e 19 de agosto, dentro da programação do Conexões Gramado Film Market, braço voltado ao mercado audiovisual do Festival de Cinema de Gramado.
Foram três dias de atividades, incluindo masterclasses, palestras e oportunidades de networking com profissionais de diferentes áreas do cinema brasileiro.
Entre os nomes que participaram da formação estavam Leonardo Edde, diretor-presidente da RioFilme, e o ator e diretor Sílvio Guindane.
Para Marlon, a experiência significou não apenas formação profissional, mas também a possibilidade de ampliar contatos e conhecer caminhos para transformar projetos em novas produções.
O melhor resultado de São Paulo
A seleção para a residência levou em consideração diferentes aspectos da trajetória dos candidatos. Currículo, portfólio, carta de motivação e proposta de desenvolvimento fizeram parte da análise.
O resultado colocou Marlon entre os cinco primeiros colocados.
Para um cineasta que construiu sua trajetória na periferia, a classificação tem um significado que ultrapassa a conquista profissional.
“Pensando nas periferias e na cidade de Embu das Artes, acho que essa conquista tem uma relevância até mesmo simbólica, de mostrar que a gente consegue.”
A declaração ajuda a dimensionar o significado da conquista.
Quando um realizador vindo de um bairro periférico ocupa espaços tradicionalmente associados a grandes produtoras, escolas de cinema e centros culturais, ele também amplia o imaginário sobre quem pode produzir cinema no Brasil.

@Mathaus Woerle/Reprodução
Um cineasta de Embu no radar da Variety
A passagem por Gramado também ganhou repercussão internacional.
Marlon foi apontado pela Variety, uma das principais publicações internacionais especializadas na indústria do entretenimento, como um dos talentos da nova geração.
O reconhecimento coloca o cineasta de Embu das Artes em uma vitrine muito maior do que aquela existente quando começou sua trajetória.
Mas Marlon parece entender que reconhecimento não significa chegada.
Representa uma nova etapa.
A indústria audiovisual continua exigindo formação, contatos, financiamento e capacidade de transformar projetos em obras. Para quem vem da periferia, esses obstáculos costumam se somar à necessidade de conciliar criação artística e sobrevivência financeira.
“Modo sobrevivência”
Existe uma contradição no cinema brasileiro.
De um lado, festivais, premiações e programas de formação abrem portas para novos talentos. De outro, muitos profissionais ainda precisam enfrentar a instabilidade financeira para permanecer trabalhando.
Marlon conhece essa realidade.
Ao falar sobre as dificuldades enfrentadas por profissionais negros da periferia, o cineasta resumiu a situação como estar no “modo sobrevivência”.
A expressão ajuda a dimensionar o tamanho da conquista.
Não se trata apenas de chegar a Gramado.
É conseguir permanecer no caminho depois que os holofotes se apagam.

Foto: Variety@Ticiane da Silva/Pressphoto
Uma trajetória que já tem filmes
A história de Marlon não começou agora.
Seu currículo reúne diferentes trabalhos realizados ao longo dos últimos anos.
Entre eles está o curta-metragem “Ermo”, exibido no Festival Brasileiro de Cinema de Orlando, além do documentário “Um Filme Para Maria Rosa: Saúde Pública, Arte e Memória”, apresentado no Centro Cultural Mestre Assis.
Outro projeto importante é a adaptação cinematográfica de “Junho Febril”, livro de autoria de Igor Mendes. A produção ainda não tem previsão de estreia.
São trabalhos que ajudam a entender que o reconhecimento em Gramado não surgiu por acaso.
A seleção foi resultado de uma trajetória construída ao longo de anos.

Embu das Artes no mapa do novo cinema brasileiro
Embu das Artes já possui uma identidade cultural reconhecida nacionalmente.
A cidade construiu sua imagem em torno das artes plásticas, do artesanato, da música, da cultura popular e da produção artística independente.
A história de Marlon acrescenta outro capítulo a essa identidade.
Agora, o nome de Embu das Artes também aparece associado à nova geração de realizadores do cinema brasileiro.
E existe uma força especial no fato de ele ser morador do Jardim Santo Eduardo.
Porque o bairro, muitas vezes lembrado apenas por problemas urbanos, infraestrutura ou desafios sociais, também produz sonhos, talentos e profissionais capazes de ocupar espaços nacionais.
A história de Marlon mostra esse outro lado.
O lado de quem estuda, cria, trabalha e insiste.
De Embu para o Brasil
A 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado aconteceu entre 12 e 22 de agosto de 2026, reunindo produções e profissionais de diferentes segmentos do audiovisual brasileiro.
Foi nesse cenário que Marlon Andrade levou o nome de Embu das Artes para uma das vitrines mais importantes do cinema nacional.
O quinto lugar entre mais de 200 candidatos é um número.
Mas, para o Jardim Santo Eduardo, representa algo maior.
Representa a possibilidade de uma criança olhar para uma câmera e imaginar que também pode contar uma história.
Representa um jovem da periferia ocupando um espaço que muitas vezes parece distante.
E representa uma cidade que, mais uma vez, mostra que sua vocação artística não está presa apenas às ruas do centro histórico, às galerias ou aos ateliês.
Ela também pode estar atrás de uma câmera.
Marlon chegou a Gramado.
Agora, o desafio é continuar filmando.
E fazer com que outras histórias — inclusive as histórias de Embu das Artes e do Jardim Santo Eduardo — também encontrem uma tela para serem vistas.
Serviço e contexto
Nome: Marlon Andrade
Idade: 33 anos
Cidade: Embu das Artes (SP)
Bairro: Jardim Santo Eduardo
Área: Cinema e audiovisual
Reconhecimento: 5º colocado na seleção da 1ª Residência para Jovens Cineastas de Gramado
Seleção: mais de 200 candidatos de todo o Brasil
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