Caso Renato Oliveira: tentativa de homicídio contra jornalista leva MP a pedir julgamento fora de Embu

Promotoria afirma que réus têm forte ligação com grupo político local e pede transferência do julgamento para São Paulo por risco de pressão sobre jurados e testemunhas

O Ministério Público de São Paulo deu um passo decisivo em um dos casos mais sensíveis da política e da segurança pública de Embu das Artes. Em petição enviada ao Tribunal de Justiça, a Promotoria pediu que o julgamento de Renato Oliveira e Lenon Roque — acusados de tentativa de homicídio contra o jornalista Gabriel Barbosa da Silva, o Binho — seja retirado da cidade.

O motivo: risco de influência política sobre o Tribunal do Júri.

O pedido de desaforamento foi protocolado no dia 2 de março e ainda aguarda análise do TJ-SP. Caso seja aceito, o julgamento será transferido para a capital paulista.


Por que o MP quer tirar o julgamento de Embu?

A Promotoria sustenta que os réus possuem vínculos diretos com o núcleo político local, o que poderia comprometer a imparcialidade dos jurados.

Segundo o documento:

  • Renato Oliveira é apontado como “afilhado político” do ex-prefeito Ney Santos;
  • Atualmente, ocupa cargo de secretário na gestão do prefeito Hugo Prado, aliado de Ney;
  • Lenon Roque é descrito como próximo ao ex-prefeito e já teve envolvimento em episódios ao lado de integrantes do grupo;

Para o Ministério Público, esse cenário cria um ambiente de pressão indireta — ou até direta — sobre quem será responsável por julgar o caso.


Risco à integridade de jurados e testemunhas

O alerta da Promotoria vai além da influência política.

O órgão afirma que há risco concreto à segurança dos envolvidos no julgamento:

“A própria integridade física e psicológica dos jurados e testemunhas poderá ser colocada em risco.”

Na foto Renato Oliveira ao lado do Ex-prefeito Ney Santos

Outro ponto destacado é a composição do júri. Parte significativa dos jurados pode ser formada por servidores públicos municipais — o que, segundo o MP, aumentaria a vulnerabilidade a pressões.


Processo chega à fase final

O caso já passou por todas as instâncias recursais.

Os acusados recorreram ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas tiveram os pedidos negados. Com isso, o processo transitou em julgado.

Na prática, isso significa que Renato e Lenon irão a júri popular.

A previsão é que o julgamento aconteça até 2027 — agora dependendo da decisão sobre o local.


ENTENDA O CASO

Na madrugada de 28 de dezembro de 2017, uma perseguição começou no centro de Embu das Artes e terminou na Rodovia Régis Bittencourt.

Segundo a denúncia do Ministério Público:

  • Renato Oliveira dirigia um Hyundai i30;
  • Lenon Roque estava no banco do passageiro;
  • A dupla passou a seguir o jornalista Gabriel Barbosa da Silva (Binho), que pilotava uma moto;

Na altura do km 279 da rodovia, o carro atingiu a moto da vítima, provocando sua queda.

No chão, sem conseguir se levantar, Lenon teria efetuado três disparos de arma de fogo.

Binho não foi atingido. De acordo com o Ministério Público, isso ocorreu por erro de pontaria.

Carro usado por Renato, com comparsa, no ataque ao jornalista Gabriel Binho, em 2017; secretário hoje, que vai a júri popular em definitivo após ter recursos esgotados | foto/Divulgação
Na foto,Lenon Roque ao lado de Ely Santos  irmã de Ney Santos

Motivação: vingança política

Jornalista Gabriel Binho é socorrido com dor ao ter tornozelo quebrado após atentado na madrugada de 28/12/2017; autores Renato e Lenon | Divulgação

À época, Binho atuava como chargista do Verbo Online, produzindo conteúdos críticos à gestão municipal.

Segundo a Promotoria, isso teria transformado o jornalista em alvo dos acusados.

O crime foi classificado como tentativa de homicídio triplamente qualificado, com agravantes:

  • Motivo torpe (vingança política);
  • Ataque surpresa, dificultando a defesa da vítima;
  • Risco a terceiros, já que ocorreu em rodovia federal movimentada;

Conexões que pesam no processo

O Ministério Público também cita episódios anteriores que reforçariam os vínculos entre os envolvidos.

Em outro processo, Lenon foi flagrado armado ao lado de Claudinei, em uma viagem com veículo oficial da Prefeitura de Embu das Artes. Ambos foram condenados.

Para a Promotoria, o histórico indica:

  • Proximidade entre os integrantes;
  • Atuação conjunta em situações de risco;
  • Acesso a estruturas públicas;

O que está em jogo

O pedido de transferência do julgamento escancara uma discussão maior:

  • A capacidade de cidades médias julgarem casos com forte peso político;
  • A independência do Tribunal do Júri;
  • A segurança de jornalistas que fazem críticas ao poder;

Se o Tribunal aceitar o pedido, o caso sai de Embu. Se negar, o julgamento acontece onde tudo começou.

E, nesse cenário, permanece a dúvida: é possível garantir um julgamento livre de pressões em um caso com esse nível de envolvimento político?


Sugestões de imagens para a matéria

  • Rodovia Régis Bittencourt (km 279), local do crime;
  • Centro de Embu das Artes à noite;
  • Fachada do Tribunal de Justiça de São Paulo;
  • Ilustração de perseguição entre carro e moto;
  • Arte simbólica representando pressão política sobre o júri;