
Uma estrada no interior de Minas Gerais. Um sinal de luz ignorado. Uma viatura da Polícia Militar iniciando acompanhamento. Ao volante, um dos homens mais próximos do poder municipal de Taboão da Serra.
O que começou como uma abordagem de rotina terminou com prisão em flagrante, perícia confirmando adulteração de placas e duas versões completamente diferentes apresentadas pelo mesmo homem — em poucas horas.
No centro da história está Marco Roberto da Silva, chefe de gabinete da Prefeitura de Taboão da Serra, que se apresenta nas redes sociais como “pastor Marco Roberto”.
A pergunta que permanece é direta: qual das duas versões diz a verdade?
A primeira versão: “Eu tirei a placa original”
Segundo o depoimento do policial militar Leonardo Aparecido da Costa, a abordagem ocorreu após a equipe perceber uma picape com placas que indicavam a presidência da Câmara Municipal de Embu das Artes, na Grande São Paulo.
Os policiais deram sinal de luz para que o motorista parasse. Ele não teria obedecido de imediato e seguiu pela rodovia Governador Adhemar de Barros, em direção a Águas da Prata, já em território paulista. A abordagem ocorreu no quilômetro 242.
Ainda na rodovia, Marco Roberto teria afirmado que:
- Removeu a placa original do veículo, que estava guardada na cabine;
- Utilizava a placa legislativa em razão do cargo que ocupa;
- Teria conseguido a placa da Câmara de Embu das Artes;
- Ele próprio teria providenciado o emplacamento.
Segundo o relato policial, o chefe de gabinete ainda teria explicado que, em São Paulo, seria comum o uso desse tipo de placa para facilitar a livre circulação.
Se confirmada, essa declaração indica uma ação consciente: a substituição deliberada da placa original por outra que remete a um poder legislativo municipal.
A segunda versão: “Brincadeira ou maldade”
Horas depois, já na delegacia e na presença de advogado, a narrativa mudou de forma significativa.
Em novo depoimento, Marco Roberto afirmou que:
- Voltava de viagem com a família, vindo de Minas Gerais;
- As placas adulteradas teriam sido colocadas no pátio da Prefeitura de Taboão da Serra;
- Não saberia dizer se foi “por brincadeira ou maldade”;
- Percebeu que as placas estavam trocadas;
- Por fazer uso de remédios fortes, físicos e psíquicos, teria esquecido de retirá-las;
- Não teve intenção de fraudar ou obter qualquer vantagem indevida.
A mudança de versão é substancial. Na primeira, ele assume a iniciativa da troca. Na segunda, passa a sustentar que teria sido alvo de uma possível armação ou ato de terceiros dentro do ambiente da própria prefeitura.
A responsabilidade, que inicialmente parecia direta, passa a ser atribuída a um autor desconhecido.
O que diz a perícia
O veículo foi encaminhado para exame técnico. O laudo confirmou a adulteração das placas.
A placa original estava dentro do veículo. A placa com identificação da presidência da Câmara de Embu das Artes estava instalada.
Com base no resultado da perícia, o delegado responsável decretou a prisão em flagrante por conduzir veículo com placa identificadora adulterada, crime previsto no Código Penal.
O peso das contradições
O conflito entre as duas versões pode ter impacto direto no andamento do processo.
Mudanças relevantes de narrativa costumam ser analisadas sob três perspectivas:
- Ajuste estratégico após orientação jurídica;
- Tentativa de afastar a intenção criminosa;
- Construção de tese defensiva diante de evidência técnica.
Algumas questões permanecem sem resposta clara:
- Se percebeu que a placa estava trocada, por que seguiu viagem interestadual nessa condição?
- Se foi vítima de uma “brincadeira”, por que a placa original estava guardada na cabine?
- Por que a primeira explicação foi tão diferente da apresentada posteriormente?
Reação da Câmara de Embu das Artes
O presidente da Câmara Municipal de Embu das Artes, vereador Abel Arantes (PL), publicou vídeos exibindo as placas verdadeiras instaladas no veículo oficial da presidência.
A manifestação buscou esclarecer que as placas utilizadas no carro de Marco Roberto não pertencem à instituição.
A Câmara informou que aguarda comunicação formal da Justiça para adotar eventuais medidas administrativas.
Silêncio do Executivo
A equipe de reportagem solicitou posicionamento do prefeito de Taboão da Serra, Daniel Bogalho (União Brasil). A resposta foi que não haverá manifestação até a conclusão do caso.
Marco Roberto passou por audiência de custódia e responderá ao processo em liberdade, com medidas cautelares:
- Proibição de sair da cidade sem informar a Justiça;
- Proibição de frequentar bares;
- Recolhimento domiciliar entre 23h e 6h.
Entre o púlpito e o poder
Nas redes sociais, Marco Roberto se apresenta como pastor. No Diário Oficial, ocupa o cargo de chefe de gabinete. Nos autos do processo, figura como investigado por conduzir veículo com placa adulterada.


Quando um símbolo do Estado aparece em um carro particular, a discussão ultrapassa o campo administrativo. Envolve credibilidade, autoridade e confiança pública.
A perícia confirmou a adulteração. A prisão em flagrante foi decretada. A Justiça concedeu liberdade com restrições.
Resta agora à investigação esclarecer um ponto central: qual das duas versões corresponde aos fatos.